A estacao de Mostar tinha duas linhas. Nao tinha paineis sobre as partidas, mal tinha pessoas. Mas na plataforma encontramos dois portugueses – o Bruno e o Joao – que iam tambem para Sarajevo. Ficamos um bocado a conversa ate chegar o comboio. Ai percebemos as verdadeiras consequencias de estarmos na Bosnia: era velho, com caixilhos de madeira, macanetas antiquadas, janelas seguras por paus, os vidros tao sujos que mal se via la para fora.

Nao tinhamos espaco para viajar. Sentamo-nos nas malas, no meio do estreito corredor e assim fariamos toda a curta viagem.

Passado pouco tempo apareceu uma menina que nao devia ter mais do que 9 anos. Com os roupas todas sujas, as unhas das maos mais porcas, unhas dos pes tao grandes como nunca vi e partidas, uma banana debaixo do braco. Era infinitamente bonita, mas nao era inocente. Vinha de mao estendida e comecou a cantar, sem jeito, sem proveito. Um grupo jovem de bosnios deu-lhe uma moeda, incentivou-a a cantar e depois deu-lhe um cigarro para a calar.

Ela sentou-se ao meu lado, no chao, e fumou o cigarro todo encarando os bosnios com um olhar curioso, mas cingindo-se a invisibilidade que toda a gente lhe conferia. Tanta gente passou por nos que nem sei quantas vezes nos levantamos, mas ela nunca. Chegou o “pica” que  lhe ralhou por estar ali, mas ela respondeu lhe sem se preocupar; e por ali ficou, sentada no chao, as moedas a tilintar-lhe nas maos.

Como se nao notassem a miseria…

Depois o tal grupo pareceu-me cruel e provocador. Sacaram de umas sandes enormes e falavam alto, muito alto, enquanto a menina olhava para eles. Nao fazia um ar coitadinho, mas olhava com paciencia. La lhe perguntaram se ela queria um bocado e ela respondeu que nao; talvez por orgulho, de certeza que tinha fome.

O Bruno apareceu entao para falar connosco e acabou por pisa-la. Pediu-lhe desculpa. Pisou-a outra vez, pediu-lhe desculpa. Outra, e ela levantou-se, decidida, e foi-se embora.

Eu nao soube olhar para ela, como podia ajuda-la, como explicar-lhe que com 9 anos merece estar na escola, merece nao estar a fumar so porque lhe dao um cigarro (que nao tera sido o primeiro), que merece estar numa boa casa, num outro pais que lhe preste atencao…

Esgotou-se-me o coracao.

Joana

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Quando pensava na Bosnia & Hercegovina imaginava um lugar com ar de terceiro mundo e tudo destruido. Tinha receio do que ia encontrar, sim, embora nao me tivesse informado la muito sobre o assunto. Aprendi que e sempre melhor nao criar grandes ideias sobre os lugares porque isso os torna vulneraveis.

Quando chegamos a Mostar chovia um bocadinho. Encontramos uma realidade completamente diferente da da Croacia, uma cidade sem turistas, sequer sem pessoas na rua. Era Domingo e nem prestamos muita atencao.

No caminho para a (famosa) Stari Most, nao podiamos deixar de reparar nos edificios que nos iam rodeando: fachadas esburacadas de balas inumeras, muito provavelmente disparadas ao acaso, predios com enormes crateras, talvez uma bomba atirada deste um aviao e avisos do perigo de derrocada desta ou daquela casa, geralmente de edificios trabalhados, de outras eras mais prosperas de uma cidade tao pequena.

A ponte de Mostar era das coisas mais bem enquadradas que tivemos oportunidade de ver. Sem linhas complicadas, duas pontas suspensas que ligavam margens com um ar precario mas vivido. Subimos ao minarete de uma mesquita – cada dia tenho mais respeito pela religiao – e pudemos enfim compreender a dimensao daquele simbolo. Duas etnias opostas se tinham confrontado desde lados inversos, mas nao por real tensao ou desentendimento.

Entramos numa loja e estava a passar um filme com as imagens da destruicao da ponte. O facto de haver imagens boas, recentes, capazes de testemunhar tal acontecimento fez-nos arrepiar. Afinal, esta guerra foi ha tao pouco tempo e nos tao ignorantes sobre os seus propositos e sobre as suas consequencias. Nao era so uma ponte, era a prova de uma barbaridade mal informada.

Deixamos a loja com os estomagos contorcidos e voltamos a estacao de comboio por ruazinhas nao ocidentais, com ligeiros toques arabes num local aqui, na Europa. Estranho por parecer pouco ocidental. Mas notavamos a simpatia nos olhares (e a diminuicao brutal dos precos). Era como ter viajado para muito muito longe!

Joana

Ora e so clicar!

Split: muuuito calor! Finalmente o mar aparecia para nos dar um ar da sua graca.

Sentimo-nos como em St. Tropez, sentadinhos na esplanada, a sombra, para fugir do sol que queimava. Passeamo-nos pela cidade, reconhecemos algumas caracteristicas evidentemente romanas, outras que lembravam veneza. Aqui havia finalmente historia, daquela que estudamos na escola!

Subimos a torre de Split – tivemos muito medo. A torre tinha 5 seculos, mas do que eu tinha mesmo medo era de subir as escadas de ferro que alguem se lembrou de colar aos pedregulhos antiquissimos. As modernices nem sempre sao animadoras.

MAS quando la chegamos acima – por “nossa propria conta e risco”, dizia na tabuleta la em baixo, mesmo que nos tivessem cobrado 10k (1,40€) -, valeu a pena. Uma vista lindissima, com o mar ponteado por barquinhos e casinhas de telhados cor de laranja que enchiam a vista.

Depois apanhamos o catamaran para a ilha croata de Hvar. Iamos ficar na Jagoda Guesthouse, o que provou ser uma ideia brilhante!: tinhamos um apartamento so para nos por 18,20€/pessoa, com cozinha e terraco e rtp internacional! Os meninos ficaram todos contentes porque passaram o tempo depois do jantar a ver o Portugal-Dinamarca (sim, bem sei que perdemos!). Era como estar em casa mas no meio de um calor tropical, com uma vista lindissima!

A noite saimos para um bar/disco na praia chamado Carpe Diem e no dia seguinte fomos para a praia: agua limpida, transparente, super azul turquesa, uma especie de paraiso que guardamos so para nos, para descansarmos das nossas voltinhas.

A Jagoda era uma senhora simpatiquissima, muito prestavel, preocupada mas muito modernaca!

ADORAMOS HVAR!

Depois de ontem termos frustrado a ideia do miguel de alugar um carro em Dubrovnik para ir a um dos paises mais recentes do mundo (nao digo “o” mais recente porque desconheco como esta a situacao da Ossetia do Sul) – o Montenegrohoje foi a vez de deixarmos para tras a ideia de ir a Belgrado entre Sarajevo (onde estamos agora) e Budapeste (para onde vamos amanha ou depois). Mantemo-nos portanto incrivelmente fieis ao programa inicialmente tracado pela Joana!

Mas fizemo-lo menos por questoes financeiras e mais por questoes monetarias. Somos alias tao poupados que ontem em Dubovnik andamos (peco desculpa mas o teclado e “da Bosnia” literalmente e portanto acentos neste post e no anterior tem sido complicados) a procura da pizzaria mais barata para mesmo assim pegarmos na garrafa de agua dos clientes anteriores e irmos enche-la a fonte da cidade. Tenham orgulho em nos paizinhos e maezinhas que cumprir o nosso budget de 30€ por dia (o da Joana e 25€ mas eu plo menos nao csg :P) tem sido dificil mas tentamos.

P.S- Ontem foi o 1o dia em que decidi nao levar o casaco que o goli me emprestou e que ocupa pouqissimo espaco. Resultado: O mau tempo chegou… e choveu a potes. What’s my name again? :/

Algumas notas sobre a viagem:

  • Os croatas falam melhor Ingles que os austriacos. A serio, chega a ser impressionante! Ate numa mercearia em zagreb, que nem no centro da cidade era, a senhora (com o ar tipico da sua profissao, podendo mesmo ser portuguesa, assim tipo gordinha de 50 anos, avantajada e de avental) depois de eu pedir dinheiro ao Miguel, se vira para ele e diz “Now he owes you Beware”. E espantoso!
  • Os Sonos: eles ca sao uma coisa estranha. Ja dormi em autocarros, na praia, em barcos, 4 vezes em bancos de jardim e em 6 comboios diferentes… Ou serao mesmo os horarios que sao diferentes? E que nunca na vida em Lisboa me deitaria as 11 da noite e acordaria as 6.
  • Adorei Mostar! E das melhores cidades que vimos ate agora mas mais de metade das televisoes que vimos ao longo da tarde estavam ligadas no… TELETEXTO (porque?)

P.S- Isto do Couch Surfing nao corre la muito bem – ja levamos algumas 10 negas. Acho que tem a ver com o nosso perfil (cliquem aqui)… A unica conclusao que se pode tirar e que os europeus sao racistas, desconfiamos que nao queiram alojar “pretos” como o Miguel. 😉

Chegamos a Zagreb (Croacia) sem quaisquer expectativas. Atafulhamos um cacifo da estacao com as nossas mochilas e descobrimos o antiguado que e fayer cambios de dinheiro. Ora portanto: 5 kunas=0,70eur!

Saimos para a cidade e iniciou se o incrivel churrilho de trocadilhos que os M’s conseguiram fayer com a palavra kuna (que eram bastante mais agradaveis do que as obssessoes dos liublianenses de desenharem nas paredes da cidade penis e vaginas gigantes (Veridico!!)).

Zagreb eram, enfim, uma verdadeira cidade com vida turistica e local, com lojas mais internacionais, com grandes esplanadas em pracas largas, com jardins e monumentos e muita historia. Nao era imaculada como Salzburgo, familiar como Graz ou intrigante como Liubliana. Mas era cara como Milao e nao tinha nenhum rio a reparar uma Old Town de outra margem mais moderna – como havia sido recorrente!

No turismo deram-nos um panfleto que adorei e nos fez percorrer toda a cidade reconhecendo a historia de cada lugar. Fiz de guia para os M’s e aprendemos que: Zagreb podia chamar-se Graptol ou Kapgrad como Budapeste porque tambem era constituido por duas cidadezinhas de vivencias opostas, mas que foi mais original que isso; as senhoras das mercearias de bairro sabem falar ingles; a Croacia esta cheia de poetas e e famosa pela sua “arte naife”.

Para o final do dia sentamo-nos num banco de jardim a descansar e a comer uvas, como os velhotes que apreciam o tempo a passar. Apanhamos o comboio e la seguimos para aqueles que seriam os melhores dias ate agora… Mas isso fica para depois!

Joana